A extinção do café
O café é uma das bebidas mais populares do mundo, com um consumo global que supera 2,25 bilhões de xícaras por dia.
Contudo, a produção de café enfrenta ameaças significativas que poderiam levar à sua extinção.
As mudanças climáticas representam a maior ameaça para a produção de café. O aumento das temperaturas, a variabilidade das chuvas e a ocorrência de eventos climáticos extremos afetam as áreas adequadas para o cultivo de café.
Segundo um estudo publicado pela revista "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS), até 2050, cerca de 60% das áreas atualmente usadas para cultivo de café arábica poderão se tornar inadequadas devido às mudanças climática.
Doenças como a ferrugem do café e pragas como o broca-do-café também são ameaças. A ferrugem do café já causou grandes perdas em colheitas na América Latina. De acordo com a Organização Internacional do Café (OIC), surtos de ferrugem entre 2012 e 2017 reduziram a produção em algumas áreas em até 30%.
O desmatamento, particularmente em áreas de floresta tropical que são essenciais para o cultivo de café, contribui para a perda de habitat e a redução da biodiversidade. A destruição dessas áreas impacta não só a produção de café, mas também os ecossistemas que suportam a vida selvagem e os serviços ecológicos essenciais.
A extinção do café teria repercussões significativas em várias esferas econômica com milhões de pessoas em países produtores de café que dependem da indústria para sua subsistência, o café é parte integral da cultura e das tradições em muitas sociedades, sua extinção impactaria profundamente as comunidades que cultivam e consomem café.
A cultura de café, substituída por outras culturas como soja que não são sustentáveis, poderia exacerbar os problemas ambientais, incluindo a degradação do solo e a perda de biodiversidade.
A América Latina sendo a maior região produtora de café do mundo, com países como o Brasil, está em alerta devido a crise hídrica sobre a região sudeste com Minas Gerais e Espírito Santo, a fase crítica do desenvolvimento da safra de 2024/25 acontece nessa altura e podemos esperar a quebra de 30% na produção, é um número expressivo dado que Minas e Espírito Santo representam a metade de produção cafeeira no Brasil. Causando danos irreversíveis, não esquecendo que o Brasil vem enfrentando danos à produção de café arábica desde 2020
Colômbia e Guatemala liderando a produção. As mudanças climáticas têm afetado drasticamente essas regiões, com secas severas e temperaturas elevadas reduzindo a produtividade. A ferrugem do café também tem sido particularmente devastadora.
Em África, a Etiópia, conhecida como o berço do café, enfrenta desafios similares. As mudanças nas precipitações e as temperaturas extremas afetam a produção de café arábica. Pequenos agricultores, que compõem a maior parte dos produtores de café na África, têm recursos limitados para investir em medidas de adaptação.
As regiões do Vietnã e Indonésia grandes produtores de café robusta, com o aumento das temperaturas e a variabilidade das chuvas impactaram negativamente essas regiões. A broca-do-café é uma praga comum, exacerbada pelas mudanças climática.
Cientistas estão trabalhando no desenvolvimento de variedades de café que são mais resistentes a doenças e mudanças climáticas. Projetos de pesquisa como os conduzidos pelo World Coffee Research estão focados em cruzamentos e biotecnologia para criar plantas mais resilientes, e não, não é possível mudar e alterar uma monocultura do café para outra região como medida de mitigar os efeitos do clima. O café leva anos na produção do fruto, são árvores sensíveis a temperatura e a chuva.
Poderíamos pensar em cultivar as variedades de Canephora em contrapartida para manter os padrões de consumo atual, contudo a falta de recursos para estudar essas variedades e a qualidade dos grãos não acontece como o esperado.
A adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como a agro floresta e o uso de sombra, pode ajudar a mitigar os efeitos das mudanças climáticas e proteger contra pragas e doenças. Essas práticas também promovem a biodiversidade e a conservação dos recursos naturais, muitas fazendas de café já usam outras frutas como medida de criar microclimas na produção, pessegueiros, laranjas, melancia, uma vasta gama de árvores frutíferas ajudam nessa gestão de crise.
A Colômbia tem implementado programas de replantio de variedades resistentes à ferrugem do café, combinados com treinamento para agricultores sobre práticas sustentáveis. Isso tem ajudado a mitigar os impactos negativos e a manter a produção estável.
Enquanto alguns países da América Central, como Honduras e El Salvador, têm enfrentado dificuldades significativas devido à falta de recursos para implementar medidas de adaptação eficazes. A falta de investimento dos governos em pesquisa e tecnologia agrava a vulnerabilidade dos agricultores
Os consumidores também têm um papel importante na sustentabilidade do café. A demanda por café sustentável e certificado pode incentivar práticas agrícolas melhores. Escolher produtos de cafeterias locais e/ou com certificações como Fair Trade, Rainforest Alliance ou Organic podem fazer a diferença.
A potencial extinção do café é uma ameaça real com amplas implicações econômicas, sociais e ambientais. Embora as ameaças sejam significativas, esforços globais estão em andamento para mitigar esses riscos e garantir a sustentabilidade da produção de café. A colaboração entre agricultores, cientistas, organizações não governamentais e governos é crucial para preservar este recurso valioso e a subsistência de milhões de pessoas ao redor do mundo
Estudos:
1. Bunn, C., Läderach, P., Rivera, O. O., & Kirschke, D. (2015). "A bitter cup: climate change profile of global production of Arabica and Robusta coffee." *Proceedings of the National Academy of Sciences*. Disponível em: [PNAS](https://www.pnas.org/content/112/39/12368).
2. International Coffee Organization (ICO). (2018). "Coffee Development Report." Disponível em: [ICO](https://www.ico.org/documents/cy2018-19/ed-2319e-coffee-development-report.pdf).
3. World Coffee Research. (2021). "Annual Report." Disponível em: [World Coffee Research](https://worldcoffeeresearch.org/our-work/annual-reports/).
4. Deutsche Welle (DW). (2023). "Coffee threatened by climate change and deforestation." Disponível em: [DW](https://www.dw.com/en/coffee-threatened-by-climate-change-and-deforestation/a-53162104).
5. Deutsche Welle (DW). (2024). "Sustainable coffee farming in Costa Rica." Disponível em: [DW](https://www.dw.com/en/drinking-green-coffee-for-the-planet/video-39924757).

